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MEMORIAL: Armando da Paixão Monteiro da Silva




“Aprendi que a vida não consiste em poucos grandes momentos, mas sim em
milhares de pequenos momentos, aos quais emprestamos significados”.
 Ed René Kivitz
Escrever sobre a história de minha vida é um grande desafio. Porque, falar de
mim mesmo, sempre me foi difícil. Talvez porque, por um lado, descortino os erros, o
radicalismos, infelicidades, e por outro lado defronto com as memórias felizes, lúdicas;
aquelas coisas que foram e nos tornaram especiais. Saber lidar, ao confrontar, com os
dois lados de nós mesmos é uma ação libertadora que nos amadurece, nos personaliza.
Difícil mesmo é arranjar tudo e definir.
A infância
Nasci no dia 15 de Abril de 1965, na semana da Pascoa. Por esse motivo, me
nomearam, Armando da Paixão Monteiro da Silva. Da Paixão, portanto, relacionado a
paixão de Cristo. Minha mãe deu a luz na casa de meus avós maternos localizada na
Travessa Marquês de Herval entre Barão do Triunfo e Marques de Herval no bairro da
Pedreira em Belém do Pará. Sou o quarto filho de cinco irmãos, três homens e duas
mulheres. Meu pai era um padeiro e minha mãe era uma dona de casa, muito prendada,
costureira de mão cheia, tenho que admitir, pois desde minha primeira infância lembro
de vê-la costurando nossas roupas e também aceitava encomendas de outros, e com isso
ajudava nas despesas de casa. Essa casa, onde nasci, era uma casa muito antiga, não
tinha banheiro; tomávamos banho e fazíamos as necessidades na área externa a traz da
casa, tinha muito mato no quintal, eu me lembro disso. O piso da casa era de madeira e
quando andávamos ele ringia. Ela também abrigava um primo chamado Paulo, era
branco de olhos claros e tinha deficiência, nos pés e apesar disso era bom dançarino,
filho da tia Célia, irmã de minha mãe. E um tio que era irmão de criação de minha mãe
que se chamava Haroldo, era negro, alfaiate, muito divertido, gostava de contar história,
piadas, fazer truques de mágica e colocar apelidos na gente. O meu era português; diz
ele que era pela cor da minha pele. Eu me lembro que em um desses “espetáculos” de
mágica ele me impressionou muito quando “colocava” um grão de feijão em um ouvido
e o retirava pelo outro. Foi tão impressionante para mim, enquanto criança, que tentei,
escondido de todos, fazer a tal “mágica”. Achei que era de verdade. Logo tive que revelar minha façanha, porque o caroço de feijão ficou engatado dentro do ouvido, e
nada de sair, nem do outro lado e nem por onde entrara, além de causar dor no ouvido.
Como resultado, ao invés de aplausos levei umas palmadas, o meu tio uma bronca da
mamãe, e o show terminou no hospital para tirar o feijão do ouvido.
Mudamos para Castanhal e aqui passo a maior parte de minha infância.
Fazíamos roladeiras para brincar nas tarde de domingo. Roladeira, era feita de uma ou
várias latas de leite em pó, cheia de terra, furada com um prego bem no meio da tampa e
do fundo da lata, traspassada por um arame de um lado ao outro e preso a um fio com o
qual puxávamos, como se fosse um carrinho. Fazia muito barulho. Além disso,
brincávamos de fura fura, pião, cemitério, pira esconde, 31 alerta, e tomávamos banho
na chuva. Anoite a energia ia embora cedo, a força e luz, nome da casa que abrigava o
gerador elétrico movido a óleo diesel, responsável pelo fornecimento de energia,
funcionava até oito, nove horas da noite, as vezes até mais tarde. Todos se sentavam na
porta de suas casas, os adultos iam conversar e as crianças brincar até a hora do sono.
Tinha um vigilante que andava nas ruas com um apito depois que todos se
acomodavam. Aconteceu uma fato com minha mãe nesse tempo que foi uma verdadeira
piada pronta. Meu irmão que me contou. Minha mãe tinha os cabelos longos, até a
cintura, porém brancos, iguais ao meu (puxei pra ela). Em uma certa noite depois das
luzes se apagarem, não tinha fósforo em casa pra acender a lamparina, ou a vela. Minha
mãe usava um bata branca para dormir. Assim que o vigilante apitou na esquina ela teve
a ideia de sair e ver se o vigilante tinha um fósforo para acender as lamparinas. Era uma
noite escura. Então ela pegou uma vela na mão, vestida com sua bata branca até
próximo dos pés, e os cabelos brancos, soltos, foi abordar o vigilante perguntando se ele
tinha fogo para emprestar. Quando o pobre do vigilante viu a quela figura toda branca,
surgir em meio aquela escuridão, com uma vela na mão e voz um pouco rouca, dizendo:
ei, seu moço, o senhor pode vir aqui por favor? Meu irmão, acha, diz ele, que esse
vigilante tá correndo com medo até hoje. Eu nunca vou deixar de rir dessa história.
Por sermos muito pobres, eu tinha, ainda tenho, de certo modo, muita timidez,
na verdade, em um certo momento de minha vida evoluiu para um complexo de
inferioridade. Algo que é muito difícil de superar, dadas as circunstâncias. A disciplina
dos meus pais era muito rígida, principalmente por parte de minha mãe. Muito castigo
que, de certa forma, humilhava e que hoje acho que fora desnecessário e que não
contribuiu muito para o aprendizado da vida. Mas, de uma forma ou de outra
influenciaram para eu chegar a té aqui; não posso reclamar.
Por outro lado, me recordo que íamos a mercearia para comprar os mantimentos.
O que me lembro, ainda me faz rir, geralmente. Porque, eu, caçula, sabe como é! Era o
que mais ia na taberna, como também era conhecida, a mercearia. E, quase sempre,
acontecia uma tragédia, que se dava mais repetidamente, quando era pra comprar
manteiga pra passar no pão, ou ovos. É que eu sempre tive a fama de afobado, de querer
fazer tudo nas carreiras, muito rápido. Sempre que ia à mercearia ia e vinha correndo.
Quase sempre os ovos chegavam quebrados. Mas, o mais lúdico era a compra da
manteiga. Porque, era vendida em um papel de ceda, igual aquele usado para fazer pipa,
papagaio, pra empinar, mas, transparente e ficava lizo por causa da manteiga.
Geralmente eu, afobado, deixava cair no chão, só que tinha um mistério, ele sempre cai
emborcado, com a parte onde estava a manteiga para o chão. Então, quase sempre,
chegava em casa com cem gramas de manteiga e mais cinquenta de terra, dai, não tinha
como, apanhava mesmo. O pão era uma unidade para repartir entre todos, e ai a
confusão se dava, porque ninguém queria a parte do bico porque era, “teoricamente”,
menor que a parte do meio do pão e mais duro também. Alguém sempre saia chorando.
Outro detalhe era a questão de roupas e calçados. Porque o sapato era comprado novo
para os mais velhos e ai quando ficava apertado no pé do indivíduo era, então, passado
como herança para os mais novos. A mãe comprava vários metros de tecido e fazia o
conjuntinho, de bermuda e camisa abotoada na frente. O mesmo modelo, com o mesmo
tecido e assim saíamos para passeio em família no domingo a tarde. Todos vestidos
iguais.
Eu gostava de jogar futebol, de soltar pipa, e de tomar banho de chuva. Quando
era o período de chuva eu, meus irmão e outros colegas, saímos de casa na chuva em
direção a vila do Apeú. Nessa época, a Avenida Barão do Rio Branco não era asfaltada e
o seguimento dela que leva até a vila de Apeú, era de piçarra; não tinha casas, era tudo
mata de um lado e outro, cheia de arvores frutíferas, todas nativas, frutas regionais. Era,
ingá cipó, taperebá, manga de várias espécies, jambo, muruci, cupuaçu, pupunha, açaí,
tucumã, bacaba, bacuri, ouriço de castanha do Pará. Todos os anos durante o inverno
amazônico sabíamos que essas árvores estavam cheias de frutos. O próprio vento era
nosso aliado e derrubava muitas delas para nós. Outras, não, tínhamos que subir na
árvore. Era um arranhão pra cá, um tombo pra lá, além da disputa entre nós para ver
quem pegava as melhores frutas. Levávamos um saco de sarrapilheira para trazer cheio
de frutas. Mas, só depois de tomar muito banho de chuva e de rio, pulando dentro do
rio, se jogando dos galhos das árvores as margens do Apeú, ou para os mais corajosos,

saltar da ponte. Diversão abeça que não tinha hora pra acabar. Na volta, trazíamos os
sacos de sarrapilheira – todos molhados, com a pele enrugada, tremendo de frio,
cansados, com muita dificuldade, mas, com alegria – cheios de frutas que nos
alimentariam por muitos dias.
Como não podíamos comprar um TV, o jeito era ir quase todas as noites, assim
que anoitecia, para a praça do trem. Esse mesmo que hoje está na praça do Estrela. Na
época ficava em frente ao posto de saúde, ali, na na BR, no bairro da Saudade. No único
vagão, que ainda tem até hoje, a Prefeitura colocava uma televisão. Haviam bancos de
madeira, sem encosto e com as pernas enfincadas no chão. Assistíamos desenhos
animados; Os Flintstones, Pepe Legal, O coelho ricochete e seu ajudante Blaublau, O
coelho perna longa e muitos outros. Tinham as séries como; Jeannie é um Gênio, A
Feiticeira, O Túnel do Tempo, Daniel Boom, Zorro, e muitos filmes de Faroeste (bang-
bang). Simples, mas, muito divertido.
A fase da escola
Eu aprendia fazer as coisas que me ensinavam com uma certa facilidade.
Gostava e ainda hoje gosto de aprender um pouco de tudo que acho interessante,
necessário, para minha vida. Quando ninguém havia para me ensinar eu sempre dava
um jeito de aprender sozinho; apenas olhando como era que se fazia. Quando chega a
fase de ir a escola, meus irmão mais velhos, vão primeiro, como é de praxe, e por ter
esse jeito curioso de ser, de tá perguntando como é que faz, eu ia ver os meus irmão
fazer o dever de casa. Só que eles não tinham paciência de me ensinar porque eles
estavam era chateados porque queriam brincar e tinham que ser privados da brincadeira
para estudar. E eu era, por isso, mais um chato perguntador, enchendo a paciência deles.
Mas, eu não desistia, ficava observando de longe sem interferir. Então como resultado
dessa minha insistência e vontade de aprender, eu aprendi a ler sozinho. Mas não disse
pra ninguém, fiquei só comigo. Certa vez eu estava, na sala, sentado em um banco de
madeira, entretido, lendo; não lembro exatamente o que era, e minha mãe estava
varrendo a casa. Então ela me pede para sair do meio da varrição da casa porque estava
atrapalhando. Eu respondo que estava terminando uma leitura e já ia sair. E ela, ao ver a
minha “teimosia” retruca, meio brava, como sempre fazia quando nos reprendia: “nem
foi ainda à escola e fica fazendo de conta que tá lendo; tá é atrapalhando”. Em seguida
pega um outro livro e marca com dedo um texto e me pede para ler, enquanto tira o queeu estava lendo de minhas mãos, e em tom ameaçador me diz: “se você não lê aqui onde
estou apontando você vai pegar uma surra”. Eu, intimidado, li todo o texto e então ela se
convenceu que eu sabia ler e não me bateu. Mas, também não teceu nenhum elogio,
apenas ficou um pouco admirada e disse que ia tomar providencias para me colocar na
escola.
Quando em fim, vou para escola; chego um pouco prematuro, no meio de alunos
mais velhos que eu e isso me causa mais problemas que privilégios. É o período, onde
todos os meus medos, inseguranças, timidez, e os traumas de infância aparecem. Como
eu vinha de uma família pobre; corpo franzino, sem uma boa aparência, minha roupa era
inferior, meu lanche, meus cadernos e tudo mais era inferior aos dos meus colegas. Eu
sempre sentei nas ultimas filas de carteira lá no fundão. E quando meu nome era
chamado na lista de presença eu ficava corado de vergonha. Nunca levantava a mão,
nunca perguntava, nunca pedia, se quer, pra ir ao banheiro, mesmo que estivesse
apertado; calado eu chagava e calado eu saia. Isso não me fez perder o encanto pelos
estudos, mas, me traumatizou, pois não era isso que esperava. Então eu não tinha
estímulo para ir a escola, mas amava os livros, a leitura e a escrita. Provavelmente os
alunos nem me viam dessa forma, mas era assim que eu me via, inferior a todo mundo.
E isso, essa sensação vai me acompanhar durante toda a minha jornada escolar e na
vida.
Adolescência
Aos treze anos, começa, de fato, uma mudança radical na minha vida. Nesse
período eu vou ter minha primeira, e marcante, experiência religiosa. Minha mãe passa
a frequentar a igreja Quadrangular que ficava na Travessa Timbó, no bairro da Pedreira.
Onde ainda está até hoje. Ao mudar, depois disso, para Castanhal, não havia Igreja
Quadrangular na cidade, somente a Assembleia de Deus. Então minha mãe começa a
frequentar os cultos e me levar, com ela, uma vez ou outra. E é ai que chegamos aos
meus treze anos, quando acontece um evento no ginásio Loiola Passarinho envolvendo
várias igrejas evangélicas. E minha mãe me leva para participar. Havia um cantor de
renome, chamado Luiz de Carvalho. Na quela noite eu ouvi lindas canções, e uma ótima
pregação, algo que me tocou e que me levou a pedir a minha mãe que me levasse lá na
frente que eu queria ser um crente.
Assim, começa um tempo novo. Eu inicio um período de muita dedicação às
coisas de Deus. E então eu descubro a Bíblia como uma fonte inesgotável de sabedoria,
de vida, e passa a ser meu livro preferido. A leitura diária, constante das Escrituras me
trazem tanto conhecimento a ponto de destacar-me entre os jovens da minha idade. Mas,
eu esbarro no trauma da escola e a timidez começa a atrapalhar. Contudo, com
insistência e perseverança, de uma forma inexplicável, de repente, eu não só estava no
púlpito da Igreja falando do que lia na Bíblia, mas, também, nas esquinas das ruas, na
feira, na porta do mercado, na frente das casas de amigos na periferia da Cidade. O que
me vai render elogios pelas palavras que falava e pela dedicação que tinha. Nesse
tempo, conheço pessoas de todas as camadas sociais, que são despertadas a ajudar o
menino pobre, que tinha uma oratória não muito comum para sua idade e para a época.
Mas, que precisava de roupa, calçado, e uma vida social melhor pois teria que se
apresentar em público, nas igrejas, aniversários, inaugurações etc.
Nesse, tempo, eu aprendi a pilotar moto; uma paixão que tenho como Hobby até hoje,
amo a velocidade das motos. Aprendi a dirigir, em um Corcel 1, amarelo. Me lembro
que numas das tentativas de aprender, perdi a direção do veículo e cai numa vala cheia
de caroço de açaí. O velho Corcel, parecia mais uma maquina de bater açaí do que um
carro.
Como tudo na vida tem seu momentos bons e ruins essa história tem um outro
lado. Começando por meus pais, que não me apoiavam. Me lembro que uma vez minha
mãe me deixou dormir no pátio de casa, ao relento, não abriu a porta de casa pra mim,
só porque fiquei, um pouco mais, depois de um culto para um vigília de oração, mesmo
sendo ela Evangélica. Não entendia o porque. Além do mais, tinham as dificuldades
financeiras, a dificuldade de estudar. E agora eu estava dividido entre estudar
secularmente, e ser um pregador do Evangelho. Nesse momento a Igreja, de certa
forma, polariza questão, e eu apenas um adolescente, tenho que decidir entre uma coisa
ou outra quando tudo que eu queria era unir as duas coisas. Para piorar a situação, vários
jovens da igreja começam a ir para faculdade e seminários teológicos e quando voltam,
abandonam a igreja e vão se perder no mundo. Era um fenômeno incompreensível para
mim. Por causa disso, aqueles que, na igreja me cuidavam, me tinham em alta estima,
me cercaram e insistentemente me convenceram de não seguir os estudos, e de não
deixar o sonho, de ser um pregador. Como se a escola e a academia fossem as reais
causadoras da desventura dos jovens, e não eles mesmos. O amor que tinha por Deus e
pelo que fazia na igreja era maior que tudo, mas, como um jovem adolescente, nãocompreendia por que a religião separava mais do que unia; por que eu não podia, pela
doutrina da igreja, jogar mais futebol, nem me divertir com os amigos, de antes, só por
que não eram evangélicos e agora nem estudar podia. E essa inquietação nunca saiu de
mim.
A fase adulta
Chega então, meus dezoito anos. Já deu pra perceber que a minha vida está
ligada à vida religiosa. A primeira novidade, nessa fase, é que sou chamado pelo pastor
para dirigir uma congregação lá no bairro da Pirapora, nessa época eu morava no bairro
Nova Olinda; de onde eu ia à pés nos dias de culto, com uma Bíblia na mão e um paletó
surrado no ombro, atravessava a cidade pra cumprir minha missão. Parecia que o sonho,
de ser pregador, começava se tornar realidade. Mas, um outro problema aparece.
Muitos, irmão mais antigos na igreja, não viram com bons olhos o fato de um garoto de
dezoito anos, sem estudo, sem dinheiro, sem parentes importantes, estar na mesma
posição de muitos que eram bem mais velhos, e bem mais relacionados. Eu fico então
em meio a um fogo cruzado. Não me importei, porque, outros me apoiaram e eu
comecei colocar as ideias, a força da minha juventude, e meu dom para trabalhar e fazer
o que me tinham incumbido de fazer. Logo conseguimos comprar um terreno, pois a
igreja era pequena, de madeira e dentro o terreno de um irmão. Então começamos a
construir uma de alvenaria, mais do dobro de tamanho, e no terreno próprio. Como
estava voando muito rápido e cada vez mais alto, resolveram cortar minhas asas e me
tiraram da congregação. Passaram-se quatro anos. Aos vinte e dois anos então eu me
caso, com, Rosiléa de Assis Silva, funcionária da EMATER, muito prendada, educada,
mais tímida do que eu era. Uma excelente pessoa, que fazia parte do trabalho de jovens
da igreja. Com ela, constituo, assim, minha família e continuamos juntos até hoje. Aos
vinte e três anos já era pai de uma linda criança, o Douglas. Depois de mais três anos
sou pai pela pela segunda vez. Agora, do Gabriel. Nesse período eu trabalhava como
motorista de uma Kombi que viajava vendendo café em atacado no comercio do
interior. Depois começo a trabalhar no Banco Bradesco. Logo, vem o plano Color e
então eu e mais dez funcionários do banco somos demitidos. Em pouco tempo eu
consegui entrar, como assistente financeiro, da MAFRINORTE. Continuava envolvido
com os trabalhos da Igreja, pregando, liderando grupos de jovens nas organizações de
eventos que traziam pregadores e cantores famosos, pelo Brasil a fora. Em um desses
eventos, justo quando tinha saído da MAFRINORTE, um pastor famoso na época,chamado Napoleão Falcão, renomado dentro e fora do Brasil, faz amizade comigo e me
convida para participar do ministério dele em Goiânia. Eu aceito o convite e então me
mudo com minha esposa e filhos, para Goiânia. Só então, começa a se cumprir meu
desejo de conhecer novas terras, respirar novos ares, novas pessoas, novos
conhecimentos. Um espirito aventureiro.
E assim fomos para Goiânia. Logo fiz muitos amigos, e como sempre envolvido
nos trabalhos da Igreja. A partir dai, trabalhando de tempo integral no escritório do
Pastor Napoleão; fazendo a sua agenda, atendendo os pedidos de livros, vitas K7 e
VHS, com suas pregações, que vinham de todo o Brasil. Por andar muito com ele,
passei a ser conhecido, comecei, também, a ser convidado, pelas igrejas, para pregar, em
congressos de jovens, inaugurações de templos e outros eventos, na capital e interior de
Goias, no interior de São Paulo e Brasília. Nesse meio tempo, assumo a secretaria de
missões da igreja, no bairro de Vila Nova em Goiânia. Um dos primeiros atos como
secretário de missões era atender o pedido de um grupo de irmão brasileiros que
residiam na Guiana Francesa, os quais pediam que a igreja no Brasil enviassem um
missionário para a Guiana. Recentemente o missionário que estava lá adoeceu e teve
que vir fazer tratamento no Brasil e não poderia voltar mais. Depois de analisar todas as
possibilidades se chegou a conclusão que quem iria seria eu. E assim foi. Lá ficamos
por um ano. Fizemos um trabalho muito bonito na aldeia de índios de fala Palikur,
transferimos a igreja da favela para o centro de Caiena e quando o visto de trabalho
venceu, voltamos para o Brasil, para Goiânia. Ao regressar, em poucos dias recebemos
um convite para voltar morar em Belém e trabalhar como pastor de jovens na
Assembleia de Deus da 14 de Março sob a direção do pastor Samuel Câmara.
Asseitamos o convite e voltamos para nossa terra Natal.
Dentro de dois anos mais ou menos que havíamos voltado para Belém, sou
convocando para um reunião, extraordinária, no auditório do Templo Central. Ao chegar
lá tinha um pastor Americano, chamado Bob Hoskins, junto com uma tradutora
brasileira que morava nos Estados Unidos, a irmã Célia. Eles estavam apresentando um
projeto chamado Book of Hope (Livro da Esperança). Se tratava dos evangelhos
escritos em um formato de revisa, tipo, revista Veja. Bem colorida, cheia de figuras, e
numa linguagem para adolescente e jovens. O projeto propunha distribuir essas Bíblias
em forma de revistas nas escolas. E no dia da entrega se fazia um evento especial, com
música, apresentação de peças teatrais e palestras. Esse projeto já estava em cinquenta
países em vários idiomas e dialetos e agora eles queriam entrar no Brasil, traduzir para língua portuguesa, e alcançar as escolas. No final da Reunião, ficou decidido, que eu
como pastor dos jovens deveria assumir o projeto.
Como eu já tinha o passaporte, agora, era somente aguardar uma oportunidade,
para ir a Brasília e solicitar o visto americano. E a oportunidade aparece no mesmo ano,
no meio do ano. Uma convenção Nacional de Pastores no Anhembi em São Paulo. Um
ônibus fretado sairia de Belém, passando por Goiânia. Uma boa oportunidade, pensei!
Me inscrevi com intenção de na volta ficar em Goiânia na casa de um amigo que iria
comigo a té Brasília, na embaixada americana, e depois eu voltaria no ônibus da linha. E
assim aconteceu. O visto foi liberado, tanto o meu como da Léa, por dez anos. Foi um
milagre, pois muita gente teve o visto negado no mesmo dia que fui na embaixada. De
posse do visto, eu começo a minha nova missão. Viajo por dois anos consecutivos,
sempre no começo do ano, para os Estados Unidos para receber um treinamento do
projeto junto com os demais líderes, dos outros cinquenta países. Durante esses dois
anos eu trabalhei muito para ver esse projeto realizado. Consegui uma audiência com o
então deputado Zequinha Marinho que me levou a té a Secretária de Educação do
Estado para pedir apoio ao projeto. Recebi dela uma carta que me abriria as portas para
entrar em todas as escolas estaduais do Estado do Pará. Como o projeto começaria em
Belém, cadastrei, inicialmente, em uma planilha, todas as escolas estaduais da região
metropolitana, desde endereço até quantidade de alunos, por faixa etária, em cada
escola, em um computador, que meu cunhado havia me emprestado para esse fim.
Foram noites e dias de muito trabalho.
Finalmente, no terceiro ano, eu viajo para os Estados Unidos. Esse era o ultimo
ano de treinamento. Ia receber um notebook, uma credencial oficial como representante
do projeto no Brasil e um salário de cerca de dois mil dólares mensais durante o tempo
que trabalhasse com o projeto. Foi na cidade de Fort Lauderdale, no Marriot Hotel, bem
próximo de Miami(Maiami) na Flórida. Foi inesquecível! Porem, foi trágico ao mesmo
tempo. Na hora de receber o tão sonhado prêmio depois de tanto trabalho e tantas
viagens. O Meu pastor aqui de Belém chega na festa e apresenta uma outra pessoa, um
pastor do Rio de Janeiro, e quando penso que vou subir no palco quem é apresentado é
ele que se torna o líder do projeto. Dá pra imaginar o que senti, como me senti? Isso foi
numa quarta-feira a noite. Liguei para um pastor, brasileiro, que morava em Orlando
pedindo que ele me viera tirar desse hotel, e que me levasse para Orlando, pra eu poder
me curar da pancada, pois foi muito forte. Como meu voo para o Brasil seria na terça-
feira da semana seguinte. Eu fiquei com ele aquele fim de semana. Depois de me recompor do trauma, conversamos ele fez a proposta inesperada de me mudar para
Flórida, definitivamente, e ser seu parceiro na Igreja de Orlando. Voltei para Belém,
entreguei minha carta de desligamento da Igreja, entreguei meus cargos e, como
precisava dos visto das crianças, contatamos um agência de viagem e fechamos um
pacote de viagem, com a ajuda de um grande amigo, que ajudei nos seus primeiros
passos na igreja, hoje ele é pastor e diretor executivo da rede Boas Novas de Televisão.
A ele minha eterna gratidão. Mas, sob a condição de que os vistos dos meninos fossem
liberados. A agência nos deu de vinte a trinta dias, no entanto com sete dias eles me
ligam dizendo-me que, sem saber como, os vistos dos meninos tinham sido liberados.
Despedimos dos amigos, da igreja, dos familiares e fomos embora para realizar o sonho
americano
Mas, devo dizer que em meio a tantos autos e baixos, chega o momento que
tenho que superar a barreira da língua. Quando a necessidade bate a porta e te empurra
para além da zona dos medos e traumas, não tem jeito, tem que enfrentar. Então eu
compro uma Bíblia em inglês, numa linguagem atual, cotidiana. Essa bíblia vem com 12
K7’ s, pois eu sou do tempo da fita K7. Dai eu leio e escuto o mesmo texto de
conversação entre Jesus e os discípulos e começo a ouvir e ler todos os dias. Antes de
chegar a metade da leitura do Evangelho de Mateus e me acordo e ligo a televisão e
acontece um clique, como se um interruptor fora ligado no mesmo instante que ligo a
TV. Era um noticiário e eu percebo que estou entendendo tudo que estão dizendo.
Parece um sonho, sou bilíngue! Dai, saí pra rua, pra conversar com os gringos e
aperfeiçoar o que acabara de aprender. Depois aprendi o Espanhol e me tornei trilíngue.
Acontece o episódio das Torres Gêmeas, tudo muda, as leis de imigração se
tornam mais rígidas. Vem o Catrina, um furacão categoria cinco, chega em Orlando a
noite, o céu escureceu, ventos fortíssimos, muita chuva, o barulho do vento é assustador,
telhas e galhos de arvores voando, as cadeiras da varanda vão parar dentro da piscina.
De repente amigos se juntam em casa para orar e pedir proteção aos céus. As crianças
vão para dentro do closet, as luzes se apagam, e só ouvimos o radiosinho de pilha
informando dos estragos por todos os lados. Uma verdadeira noite de terror.
Em seguida, me desligo da Convenção das Assembleias de Deus e me ligo a uma
igreja Americana. Voltamos para o Brasil, e eu então, em 2010, me inscrevo no Enem e
consigo o diploma do ensino médio, tão sonhado na juventude. Em 2011, me desligo da
Igreja Americana e crio um ministério próprio, independente, MPVE, Ministério
Palavra de Vida Eterna. Faço o Enem novamente para entrar na faculdade mas não deu
muito certo. Em 2018, me inscrevo no Enem novamente, me inscrevo no PROUNE e
consigo uma bolsa de tempo integral na Unip de Castanhal, onde, com muito orgulho,
aso 54 anos, faço parte da turma de Licenciatura em Pedagogia, da sala 21, do turno da
noite A.

Comentários

  1. Muito emocionante sua história de vida seu Armando. 👏🏻👏🏻❤❤

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  2. Amei o pouco que ele falou sobre o memorial dele em sala😊👍🏻👏🏻

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Publicado por Felipe Matheus